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Sunday
31 January 2016

Raconte-Moi Une Histoire


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Caminhava pela estrada de ladrilhos amarelos que lhe ditavam o destino. O percurso já se encontrava traçado, bastava seguir as pistas deixadas como migalhas para não se desviar da rota que havia encetado e para a qual dificilmente haveria retorno. Girou nos calcanhares, vermelho sangue, reluzentes e preciosos, sacudiu-os três vezes como quem bate na madeira. Rogava, inocentemente, a sorte de não se perder mas também sabia que a sorte nada diz da pessoa, não lhe diz respeito, não lhe comove as decisões nem lhe dita as respostas. Mas, pelo sim, pelo não, preferia contar com a sorte do que lançar-se à sorte. O caminho levou-a para onde desejava achar-se, um mundo encantado, de personagens inéditas, de brilhozinhos e purpurinas, de carnais desejos e impuras vontades. Já não era criança, já não se aventurava a sonhar, tentava convencer-se sempre que acordava. Mas a verdade é que sonhava e amiúde sucumbia ao vício de projetar infindáveis histórias, de inventar inadiáveis paixões. Viu-se, contando os passos dados e tingidos a amarelo, encurtando a distância entre o corpo que ansiava e o ponto de chegada que sabia conter a satisfação do desejo que a incentivava a continuar. Imaginava o prazer da consumação, imaginava-se entregue a um feitiço lançado para a desafiar, para a excitar, para lhe marcar na pele a luxúria, para lhe dar a provar prazeres indescritíveis, impensáveis, inconfessáveis. Imaginava-se a colher todos os frutos da árvore do pecado, a conhecer todas as formas de saciar e de satisfazer, de amar e lamber, de chupar e penetrar, de gemer e beijar, de furar e comer, de trincar e gritar, de prazer, sempre de prazer. Marcou o compasso firme e decidido, havia de lá chegar mais depressa que o previsto, queria saber o que se encontrava no fim da linha. Depois de uma curva, vislumbrou ao longe, a lua pendurada no céu, vaidosa e imponente como que dizendo "à noite mando eu!" e sorriu por se sentir mais perto, quase lá. Ameaçava chover e as nuvens de tudo faziam para tapar a orgulhosa lua, prostrada exibindo a pretensa beleza que alvitrava ao mundo. Chegou. Chegou e sucumbiu, ajoelhou-se numa vénia ao mundo que lhe era agora dado a conhecer, embrenhou-se nele, respirando-o e deixando que se entranhasse no seu peito, guardando os bafos de prazer que se sucediam sem parar. Inspirou, olhou a lua que lhe sorria agora de volta, pestanejou, acordou.

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